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O ANARQUISMO SOMÁTICO DO BRANCALEONE
13/07/2006 11:14

                                O ANARQUISMO SOMÁTICO DO BRANCALEONE 

Jorge Goia, pelo Coletivo Anarquista Brancaleone

           Um desejo de criar prazer e liberdade vem inspirando e motivando a contínua produção da Soma, uma terapia anarquista. Já se vão mais de trinta anos percorrendo dezenas de cidades brasileiras, com lançamentos de livros, palestras, oficinas, cursos e nos grupos de terapia. Não só divulgando as idéias libertárias, mas imprimindo também nossas marcas singulares.
A Soma, metodologia desenvolvida por Roberto Freire, hoje é produzida pelo Coletivo Anarquista Brancaleone, que reúne somaterapeutas em atividade e em formação. Roberto Freire, mesmo com problemas de saúde e afastado das atividades com grupos e palestras, permanece sendo um integrante importante do Brancaleone, participando das reuniões de supervisão/planejamento e escrevendo seus livros.

          São quase quinze anos de atividades como Coletivo. Mudanças e acontecimentos não faltaram nestes caminhos: a incorporação da capoeira angola como ferramenta pedagógica e terapêutica das vivências de Soma; dezenas de cursos de Pedagogia Libertária; experiências de vida comunitária em várias cidades com grupos de Soma; produções culturais autogestivas, em teatro, jornalismo e vídeo; publicação de livros do Brancaleone; pesquisas acadêmicas sobre a contribuição singular de Roberto Freire; participação em encontros e congressos políticos e científicos; oficinas e grupos de Soma no exterior.
Temos andado bastante. E como em todos os passos, já não estamos mais no mesmo lugar. Sem receita mágica, sem regras rígidas, sem moral transcendental, o anarquismo somático do Brancaleone não está parado no tempo esperando uma utopia. Em vez de ficarmos sentados julgando o mundo, preferimos arriscar o desafio de viver nosso tesão e ampliar nosso potencial de fazer revolução em volta da gente! Acreditamos que mais que discurso, é na prática que vão se nomeando os anarquismos.

          Os anarquismos sempre se fizeram no plural, buscando a liberdade no risco da diferença. É esta diversidade que garante o terreno para as singularidades surgirem. Não para impor novas regras de conduta, re-estabelecendo hierarquias de melhor e pior, mas para apontar possibilidades de rupturas com o convencional, de abertura de outros espaços de criatividade, de invenções poéticas no cotidiano.
A Soma defende um outro embate ideológico para se viver na experiência micro-social, de cada um com os outros. Não mais de direita e esquerda, entre o bem e o mal, ou entre o certo e o errado, mas sim do prazer contra o sacrifício, da alegria contra a depressão, da beleza contra os padrões estéticos. O prazer deve ser o indicativo biológico nos processos de escolha, a alegria sua sensação e a beleza seu atributo. O tesão nosso de cada dia como parágrafo único de um ‘manual de conduta’ anarquista somático!

          Só há sentido para escolher para quem escolhe: circunscrita ao belo, a ética se constrói a todo instante e é do flexível o seu rigor. Por isso a ética numa ideologia do prazer precisa ser uma rebeldia construtiva, no aqui e no agora dos buracos e frestas por onde se pode escapar do previsível, do já dito e aceito enquanto certeza, do já feito um dia que hoje pode nos amarrar para seguirmos descobrindo e experimentando.

          O tesão sempre foi nosso elemento político fundamental, fruto da beleza, fermento do prazer, resgate da alegria, do sublime, do magnífico, das afinidades eletivas. São corredores imprescindíveis no caminhar para além do niilismo contemporâneo, este ceticismo amargo que se banaliza ainda mais no espetáculo das etiquetas digitais. Tantos dizendo tantas “verdades” que parecem tontos, isolados e desorientados, sem perceber o efeito paralisante da palavra vazia de vida.

          Por isso o anarquismo somático está sempre em movimento, combatendo qualquer acomodação, qualquer submissão, qualquer repetição, tendo a negação como atitude filosófica, partindo daí seu impulso criador. Todos os julgamentos científicos e políticos tornam-se inócuos debates de argumentos ou estruturas previsíveis quando comparados ao imponderável, ao dinâmico, à incoerência daquilo que não se pode comportar: a vida como arte! E vida assim tem que seguir andando, experimentar novos atalhos, ousar outras empreitadas, descobrir riscos diferentes para alimentar o tesão de criar alternativas em meio ao mesmo que domina e uniformiza.

          Nestes anos todos lutando pela originalidade e pela autonomia, confirmamos em nossas vidas que só é possível viver o anarquismo da Soma longe da solidão. Perto, ao lado, junto, com a gente, os outros que nos desafiam e nos apóiam na troca prazerosa de cumplicidade e no respeito camarada. Precisamos do coletivo para construir asas e antenas no lugar das tradições enraizadas no passado que já passou. Porque a amizade anarquista traz a arte que produz o tesão em meio ao comum, ao médio, a mediocridade. A convivência com a diversidade, geralmente, está longe de ser um paraíso de harmonia, no sentido de não existirem conflitos. Mas garante também o reflexo crítico que impede a cegueira dogmática dos “donos da verdade”.

          A amizade, então, faz o espelho essencial que distorce e subverte o senso-comum das relações sociais baseadas na competição e no autoritarismo. A sinceridade radical e afetiva estabelece pontos de encontro e desencontros, numa dinâmica inevitável de associações e separações. No anarquismo somático do Brancaleone, sabemos que permanecemos amigos em autogestão quando respeitamos as diferenças de cada um e buscamos relações sem hierarquias rígidas, descobrindo o prazer da vida comunitária com liberdade individual.

          E é a amizade que nos mantém juntos com Roberto Freire. ‘Bigode’ (sempre foi assim para o ‘Branca’) ainda milita como amante apaixonado. Está com 77 anos, com limitações de saúde, mas não perde o tesão de viver. Amigo da conversa gostosa, de ouvido atento, sensibilidade disponível, sempre surpreendente, nunca parando de inventar novidades. Agora resolveu gravar um CD de músicas com letras e poemas que escreveu e traduziu. Este desejo de seguir criando fascina e desafia nossa amizade, um espelho de rebeldia provocando o Brancaleone a continuar praticando a Soma com tesão, anarquismo e capoeira angola pelo mundo afora, camará!






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