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Anarquismo e Religião: a negação do Deus criador enquanto princípio de insubmissão.
João da Mata
O presente trabalho busca articular as possíveis reflexões entre o pensamento político e filosófico do anarquismo com o fenômeno das religiões, especialmente com sua institucionalização em igrejas e seitas. O antidogmatismo como uma das características da anarquia, notadamente na sua formulação anticlerical, servirá de fio condutor acerca da discussão das religiões enquanto caráter normatizador e hierárquico.
Para tanto, me farei valer do pensamento de três pensadores libertários, em diferentes épocas e formas de agir, que discutem de maneira singular este tema. Refiro-me ao militante russo que mais vociferou o lema “nem Deus, nem Estado” Mikhail Bakunin; ao romancista e pacifista Leon Tolstoi e seu “anarquismo cristão” e ao filósofo contemporâneo e escritor Michel Onfray em seu “Tratado de Ateologia”. Através do debate com esses três pensadores, acredito ser possível, chegar a caminhos de intersecção e rupturas entre a anarquia e o fenômeno religioso.
A Anarquia e os Anarquismos
“Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um tirano. Eu o declaro meu inimigo”.
Pierre-Joseph Proudhon
O significado da palavra anarquia vem do grego e indica a ausência ou negação de governos e/ou governantes. O pensamento anarquista foi mais delimitado no século XIX, através de pensadores como Mikhail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, Enrico Malatesta, entre outros. Foi durante as assembléias nas Internacionais dos Trabalhadores - congressos de trabalhadores onde se debatiam as possibilidades de ações do socialismo – as disputas entre os chamados socialistas científicos, liderados por Karl Marx e os anarquistas liderados por Bakunin, que se desenhou a cartografia dos dois pensamentos fundamentais na luta dos trabalhadores. O anarquismo - ou anarquismos em função da variedade de possibilidades de ação do pensamento libertário - privilegia a autogestão, a luta contra o Estado ou qualquer outra forma de organização hierárquica e fundamentalmente a defesa da individualidade em conjugação com a justiça social.
A anarquia é um conjunto de idéias constituídas de uma ética filosófica, política, cultural e estética na qual não há autoridade coercitiva. Por sua vez, a busca da liberdade é algo tão antigo quanto à própria humanidade e, de alguma forma, emergiu com a própria noção de vida. No homem, a força social de liberdade, de criatividade e de responsabilidade é fundamental à sua condição, e sua busca será sempre notada e percebida.
Enquanto conjunto de idéias, o anarquismo é defensor do combate sistemático ao poder centralizador. Como o poder não pode ser destruído definitivamente e a liberdade não pode ser determinada, mas conquistada, estes dois processos caminham juntos e estão em permanente construção da liberdade. Portanto, ao anarquismo, não interessa a tomada do poder e a implantação de um “regime anarquista”, pois seria uma contradição ao próprio princípio básico de sua crítica. Mais interessa ao pensamento libertário, a permanente postura antiautoritária, seja em que esfera for, buscando e ampliando os espaços de liberdade e autonomia.
A teoria anarquista foi eleita inimiga prioritária tanto pelo capitalismo quanto pelo comunismo, que através da idéia de desgoverno, bagunça e outros tantos qualificativos utilizados para desvalorizá-la buscou leva-lo a uma condição pré-política. Ao contrário do que se fala, as várias vertentes do anarquismo, ao defenderem a destruição do autoritarismo, valorizam a autonomia individual e a autogestão coletiva, e, para tanto, a disciplina e a auto-organização, porém não impostas e manipuladas por partido, governos ou religiões.
O anarquismo não é um modelo, um padrão a ser seguido. Apesar de defender princípios básicos e gerais, os vários anarquismos correspondem à diversidade entre os homens. “São diferentes rios que estão em paralelo, mas que vão desaguar no mesmo mar”, nas palavras de José Maria Carvalho, anarquista português.
Enquanto crítica das doutrinas que levam o homem à submissão e a obediência, a religião sempre teve forte crítica libertária. A noção idealista de um além-mundo e de um Deus criador detentor de uma verdade, é substituída por um materialismo ateu. Veremos adiante a visão de três pensadores libertários, em diferentes momentos históricos, cada qual mostrando, ao seu modo, como pensam a religião e a política e seus efeitos no homem.
Mikhail Bakunin e o ateísmo radical.
O movimento anarquista se desenvolveu através de vários pensadores, que se tornaram famosos por causa das suas ações, idéias e escrita. Talvez o mais famoso e conhecido de todos eles tenha sido o russo Mikhail Bakunin (1814-1876). Nascido em 1814 na Rússia czarista, Bakunin rapidamente desenvolveu um ardente ódio contra as injustiças. Aos vinte e um anos de idade, depois de algum tempo no serviço militar, abandonou o exército e começou a misturar-se em alguns círculos democráticos. Nove anos depois, ele encontrou-se com radicais como Proudhon e Marx em Paris que tiveram influência fundamental em seu pensamento. Nesta época, ele já tinha formulado sua teoria que via a Liberdade como sendo unicamente conseguida pelo levantamento generalizado da população, ligada às revoluções. Sua campanha pela democracia e anticolonialismo fez dele o “inimigo público número um” para a maioria das monarquias européias. A paixão de Bakunin pela liberdade e igualdade, e as suas condenações da injustiça e dos privilégios lhe renderam um importante espaço no movimento radical entre os trabalhadores.
Apesar de estar de acordo com boa parte da teoria econômica de Marx, Bakunin rejeitou a sua política autoritária, a idéia de tomada do poder e a implantação da ditadura do proletariado. A maior divisão entre os dois pensamentos se deu dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores.
Enquanto Marx acreditava que o socialismo podia ser construído pela tomada do poder do Estado, Bakunin acreditava na sua destruição e na criação de uma nova sociedade baseada em federações livres de trabalhadores e homens livres. Isto em breve tornou-se a política da Internacional na Itália e na Espanha, e cresceu em popularidade na França, Bélgica e Suíça; em Portugal e na Ucrânia, por exemplo, como elos mais fracos do capitalismo, levou a formas de lutas mais avançadas, unindo os trabalhadores sob os ideais libertários.
Bakunin denunciou que o governo é um meio pelo qual uma minoria governa. Desse modo o “poder político” significa a concentração da autoridade nas mãos de alguns poucos. Em vez disso deveria ter lugar uma “revolução social” que irá mudar a relação entre o povo e colocar o poder nas mãos das massas populares através das suas próprias federações de organizações voluntárias. Bakunin (1989), considera que:
“É necessário abolir completamente e em principio e na prática tudo o que possa ser chamado de “poder político”, por mais tempo que esse poder político dure, a sua existência implicará sempre ter governadores e governados, patrões e escravos, exploradores e explorados” (p. 27).
Além do Estado, criador e mantenedor das desigualdades entre os homens, M. Bakunin via nas religiões outro inimigo em potencial. Sua visão ateísta é muitas vezes colocada como uma posição anti-Deus, negando qualquer poder a um ente superior. A crítica de Bakunin vai denunciar inicialmente a estreita e intensa relação entre o poder do Estado e de sua oligarquia dirigente com o poder da Igreja e o do clero, ambos grupos defendendo seus próprios interesses contra aqueles da maioria da população. Igreja e Estado estão desta forma intimamente ligados desde suas origens, dependendo e justificando-se mutuamente. Bakunin debruça-se, sobretudo, com a Igreja Católica e com algo das Igrejas Protestantes. Entretanto, a afinidade Estado-Religião pode ser feita em todas as religiões com relação aos seus Estados. Tal relação era vista por Bakunin como algo forjado para obtenção de poder e o estabelecimento de privilégios.
Noutro aspecto, a criação de uma relação de hierarquia rígida e imutável por parte das religiões, produziria na opinião de Bakunin a própria condição de desigualdade. A existência de um Deus transcendental, idealizado e que pune, cria de um lado aquele que manda e do outro aquele que obedece. Segundo ele (1989):
“Sendo Deus pressuposto, tudo isso é rigorosamente conseqüente: Deus é o infinito, o absoluto, o eterno, o todo-poderoso; o homem é o finito, o impotente. Em comparação com Deus, sob todos os aspectos, ele é nada. Somente o divino é justo, verdadeiro, belo e bom, tudo o que é humano, no homem, deve ser por isso mesmo declarado falso, iníquo, detestável e miserável. O contato da divindade com esta pobre humanidade deve, portanto, necessariamente devorar, consumir, aniquilar tudo o que resta de humano nos homens” (p. 24).
Parece claro que aos olhos do anarquista que via nas revoluções a possibilidade que estabelecer maior igualdade, que as religiões seriam “a demência coletiva”. Tudo o que faz limitar o potencial de rebeldia, acovardar e mistificar a ação política era vista por Bakunin como algo pesticida e produtor de obediência e, portanto deveria ser denunciado e expurgado.
Leon Tolstoi e o anarquismo cristão
“Ama a teu próximo como a ti mesmo”. É com esta frase que o escritor russo Leon Tolstoi (1828 – 1910), autor de “Guerra e Paz” inaugurou no movimento libertário uma singular forma de pensar a religião. Foi, no entanto, crítico da Igreja Católica e de qualquer forma de organização política que usa a força, o militarismo, o racismo, a guerra, a lei como manifestações do autoritarismo. Tolstoi via na figura de Jesus um humanista. Não o Jesus Cristo da Igreja, mas o Jesus homem, líder e mártir que lutou por seus ideais.
Sua proposta é de um anarquismo conseqüente, como dizia, onde a sociedade só pode se concretizar por meio do desenvolvimento de um foro íntimo que leve a uma vida fraterna. Como fez Rousseau, o escritor russo defende o lema: “retornai à natureza, à mãe terra”. Assim, quanto mais sentimentos puros e quanto maior forem os laços entre os homens, melhor será a sociedade.
Tolstoi levou a sério a mensagem da Bíblia e considerou que o verdadeiro cristão precisa se opor ao Estado. Com esta leitura da Bíblia, Tolstoi (1998) chegou a conclusões anarquistas:
“governar significa usar a força, e usar a força significa fazer para os outros o que certamente não gostaríamos que fosse feito para nós. Conseqüentemente, governar significa fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros fizessem para nós, isto é, fazer o mal”. Um verdadeiro cristão deve ser avesso a governar os outros. A partir dessa posição anti-estatista ele naturalmente passou a defender uma sociedade auto-organizada: “Porque pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que governantes o farão não em proveito próprio, mas em proveito dos outros?”.
Tolstoi proclamava ação não-violenta contra a opressão, e via a transformação espiritual dos indivíduos como a chave para a criação de uma sociedade anarquista.
A partir de sua oposição à violência, Tolstoi rejeita tanto o Estado como a propriedade privada e defende táticas pacifistas para dar um fim à violência e gerar uma sociedade justa. Em suas idéias sobre uma sociedade livre, Tolstoi foi claramente influenciado pela vida rural russa e pelas obras de Peter Kropotkin, de J. P. Proudhon.
De forma geral, os anarquistas sempre foram fortemente anti-religiosos e anticlericais, porque viam nas Igrejas o poder de reprimir a dissidência e a luta de classes e de se aliarem aos poderes de Estado. Dessa forma, quase todos anarquistas eram ateístas (e concordavam com Bakunin que se Deus existisse seria necessário, para a liberdade e dignidade humana, aboli-lo). No entanto, existe uma tradição minoritária dentro do anarquismo que desvincula conclusões anarquistas da religião. Muitos anarquistas concordam com os tolstoyanos no que se refere à necessidade de uma transformação dos valores individuais como o aspecto chave para a criação de uma sociedade anarquista, e da importância da não-violência enquanto tática geral.
O Ateísmo militante de Michel Onfray
"Enquanto os homens tiverem de morrer, uma parte deles não poderá suportar esta idéia e criará subterfúgios. Não se assassina um subterfúgio, não se pode matá-lo. Ele é quem nos mata: Deus mata tudo o que resiste a ele. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto vem por reação em cadeia..."
Michel Onfray.
Michel Onfray ensinou filosofia por vinte anos em liceu e recentemente (2002), criou com outros professores, a Universidade Popular de Caen, no norte da França, com a proposta libertária de realizar uma universidade livre, na qual dá aulas para auditórios com algumas centenas de pessoas. Os freqüentadores são pessoas das mais variadas formações e interesses, que seguem seu curso pelo simples prazer de descobrir o que é filosofar. A UPC não faz exames nem fornece diplomas. Michel Onfray é um jovem filósofo de 46 anos. Atualmente se tornou um dos mais populares pensadores franceses. Autor de mais de trinta livros, dos quais alguns publicados no Brasil defende seu hedonismo como ética e encontra nas religiões um dos principais mecanismos de limitação e adequação da vida distante dos prazeres. Propõe a rebeldia contra as acomodações e paralisias da sociedade hierarquizada e o anarquismo como forma de fazer política. Assim, ele vê nas religiões monoteístas um entrave à ciência, à ética e à política.
Para Michel Onfray, o discurso apaziguador e dócil do cristianismo, do judaísmo e do islamismo - as três principais religiões monoteístas - esconde o verdadeiro objetivo das religiões: a restrição da liberdade e da vivência do prazer, através da noção de que ao sacrificar-se, o devoto recebe a purificação e seu passe para a eternidade. É dessa forma, que as religiões sustentam a idéia do corpo como o locus do pecado, e passam a partir daí, a criar uma mistificação sobre o desejo, a sexualidade, os homossexuais, as mulheres e ao livre pensamento.
As doutrinas religiosas, em seu interior e como condição de sua própria existência criam a submissão ao Deus bondoso de um lado e aplicador de castigos do outro, a obediência, a submissão e o abandono dos prazeres do corpo. O além-mundo – paraíso tão fantasioso e distante quanto idealizado - passa a ser, dessa forma a premiação àqueles que se sacrificarem e submeterem aos dogmas e ditames religiosos e seus nefastos interesses.
Onfray, herdeiro da filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), e sua afirmação de que "Deus está morto", busca combater o dualismo que durante séculos impregnou a filosofia e é a base das doutrinas religiosas. Em “Genealogia da Moral” (2004), Nietzsche já sinalizava como o cristianismo se tornou o platonismo para o povo, criando a moral do escravo como virtude, à medida que se nega o corpo através do dualismo corpo/alma, o esquecimento em detrimento do ressentimento e da culpa.
Em seus mais de trinta livros publicados, Onfray elabora seu "projeto hedonista ético", uma defesa veemente do prazer como ética de vida. Vê-se claramente a influência do Epicurismo em suas obras e na sua defesa do hedonismo. O materialismo hedonista está, assim, presente nos seus principais livros, inclusive em seu recente “Tratado de Ateologia”, em que afirma que o mundo vive hoje uma impregnação do sagrado e o do religioso. O Tratado de Ateologia, ainda inédito no Brasil, em suas quase trezentas páginas, aponta o papel devastador das religiões na história da humanidade. "Olhar a história é suficiente para constatar a miséria e os rios de sangue que correram em nome do Deus único", escreve Onfray.
Seu tratado denuncia “a criação de Jesus Cristo” - "uma fábula" criada por alguns judeus autores dos Evangelhos - Paulo de Tarso, Moisés e Maomé, com um texto ácido que pode ser resumido na expressão que ele mesmo usa: "Nem Bíblia nem Alcorão".
Personagens das práticas religiosas como padres, freiras, rabinos, e pastores são denunciados como autoritários, conservadores, retrógrados e responsáveis por perseguições, guerras e massacres de toda espécie. A esses personagens religiosos, Michel Onfray contrapõe a figura do filósofo, que procura encarar, com a razão, a realidade da vida e da morte.
Onfray ao fazer suas duras críticas às religiões sabe que está mexendo em vespeiro. Em recente entrevista que concedeu a Revista Veja (2005), na qual declarou a que “Deus está nu”, o filósofo provocou a ira dos conservadores até mesmo dentro da academia. Valmor Bolan, Reitor da Universidade Guarulhos e Doutor em Sociologia, ao comentar as declarações de Onfray, afirmou:
“Aquelas declarações não passam de bobagens, condenadas ao esquecimento, que provocará deleite apenas em superficiais. Assim como as nuvens não cobrem a verdade do sol, Deus não será destituído do coração humano, porque Ele está acima de todas as loucuras do mundo”.
E segue adiante em argumentação contra Onfray:
“Ele diz: ‘Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana". Uma leitura mais atenta de Santo Agostinho veria o quanto Onfray está equivocado, o tamanho de sua ignorância sobre os conceitos-chave não só da fé, quanto da própria filosofia, porque ele se considera filósofo, tendo fundado uma universidade popular, do livre pensamento, para ensinar filosofia ao público mais eclético possível”.
Atualmente estamos assistindo uma forte retomada do sagrado e do religioso pelo mundo afora. As seitas fundamentalistas do islã, a midiatização da morte do Papa João Paulo II, o “esoterismo barato” da classe média no Brasil e a popularização crescente das igrejas evangélicas parecem ser fenômenos que eclodem em vários pontos do planeta.
Em entrevista à Revista Cult (2005), de São Paulo, Onfray busca resumir assim suas conclusões libertárias sobre o movimento de retomadas das religiões pelo mundo:
“O desaparecimento do marxismo como ideologia que poderia resolver todos os problemas deixou um grande vazio. Ninguém mais acredita nas soluções políticas. O liberalismo que tomou conta do planeta e gera uma pobreza crescente dos mais pobres, ao mesmo tempo em que gera o enriquecimento permanente dos mais ricos, produz angústia, medo, temor, sofrimentos e dores aqui na Terra. Temos o ressurgimento da ilusão que traz reconforto de um outro mundo que seria o oposto deste aqui debaixo: um mundo de paz, de serenidade, de alegria, de abundância, de amor entre os homens. Ora, a religião permanece sendo o que disse Marx, "o ópio do povo, o suspiro da criatura oprimida". Ela é uma ilusão que distancia as pessoas do único mundo que existe, o aqui e agora. Ela é um auxiliar dos poderes estabelecidos”.
O que interessa ao filósofo francês é ao mesmo tempo entender o avanço das religiões após a derrocada do marxismo e as implicações que uma doutrina religiosa pode produzir em termos de limitações à liberdade dos indivíduos. Tanto numa quanto noutra questão, Onfray é enfático em afirma o efeito limitador e alienante das religiões monoteístas.
Conclusão
O que podemos pensar em conjugar três diferentes pensadores, em épocas históricas distintas e campos de atuação singulares? É possível traçar algo em comum no pensamento radical e ateísta de Bakunin e do cristão Tolstoi? E Michel Onfray, um pensador contemporâneo, o mais filósofo dos três, como pede se conjugar com os outros?
O que nos parece ser algo possível, em comum aos três pensamentos aqui expostos e a raiz que os une, é sem dúvidas o combate sistemático ao autoritarismo impregnado nas práticas religiosas. Como livres pensadores libertários, vimos que em diferentes abordagens e formas de agir, esta posição claramente anti-dogmática se faz presente como em suas obras.
Observamos isto, seja na posição declaradamente anti-Deus assumida por M. Bakunin, que vê no ato da insubmissão contra qualquer forma de superioridade uma atitude em defesa da liberdade; seja na valorização humanista de Cristo feita por L. Tolstoi em detrimento do que faz o cristianismo; ou mesmo na afirmação de M. Onfray que “Deus está nu”, apontando no Deus único o primordial inimigo da liberdade.
O que buscamos neste trabalho é mostrar - através dos três pensadores, todos defensores do anarquismo como forma de fazer política -, que a impregnação da crença religiosa se constitui numa espécie de fuga ao mágico, de uma esperança transcendental de um paraíso distante e idealizado. Um lugar em que os homens, salvos dos impasses da realidade e dos conflitos que caracterizam a vida social, possam existir num lugar bonito, tranqüilo e apaziguado. Parece aos olhos dos anarquistas, uma mera incapacidade de lutar pela conquista da liberdade, como algo que apenas se realiza quando lidamos com os conflitos numa realidade cotidiana.
Outra questão importante é analisar este fenômeno religioso na atualidade, através da reflexão dos três pensadores. Após o fracasso da experiência do socialismo autoritário, que durantes vários anos se tornou o único sistema de idéias contrario ao capitalismo no mundo, abriu-se um vácuo ideológico. As experiências da antiga URSS, a queda do Muro de Berlin, os massacres na China e tantos outros exemplos sopraram a cortina de fumaça do marxismo e mostrou sua principal contradição: é impossível juntar socialismo com autoritarismo. O deslize ideológico e a ganância de poder dos marxistas criaram o terreno fértil para a sua própria destruição. O capitalismo neo-liberal, em sua vertente globalizada se tornou então, algo tão dominante e abrangente, que parece não ter nada que se coloque contra ele. O Deus-mercado é também onipresente e onipotente, levando ao delírio os fanáticos do consumo e ao desespero as imensas legiões de excluídos nos quatro contos do mundo. Não é à toa que os principais fenômenos religiosos de adoração e fé se dão em países do terceiro mundo, subdesenvolvidos e explorados.
Neste cenário de desespero, não é difícil supor que essas “almas sem conforto” abracem a idéia de um Deus criador, bondoso e que salvará os pobres, humildes e explorados das garras dos tiranos e dos cruéis. No entanto, o mesmo Deus que salva, sem se deixar perceber, também prende e escraviza, criando um ciclo vicioso de dominador-dominado.
É assim que quando se quer pensar no homem livre, as doutrinas religiosas se tornam incompatíveis. É assim também, que ao buscar nos três autores aqui apresentados, busco uma ponte de intersecção comum ao que também me inquieta e me faz agir contar essa demência coletiva que as religiões produzem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKUNIN, Mikhail. O Pricípio do Estado. São Paulo: Novos Tempos Editora, 1989.
DA MATA, João. A Liberdade do Corpo. São Paulo: Imaginário, 2001.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
TOLSTOI, Leon. A insubmissão. São Paulo: Imaginário, 1998.
VALLADARES, Eduardo. Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo: Imaginário, 2000.
Revista Cult. São Paulo, 2005. Entrevista com Mihel Onfray.
Revista Veja. São Paulo, 2005. Entrevista como Michel Onfray. “Deus está nu”.
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