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FORMAS LIBERTÁRIAS DE INTERVENÇÃO SOCIAL PARA O SÉC. XXI.
Por João da Mata - somaterapeuta
A atual crise que passa o Brasil e o mundo nesta virada de milênio parece ter precedentes que extrapolam o âmbito econômico ou mesmo o das ideologias. A revolução tecnológica em pleno desenvolvimento traz modificações ainda não definidas e que certamente mudarão os paradigmas da nova sociedade. Uma outra transformação ainda em curso, iniciada por novos costumes após a década de sessenta, tem contribuído para jogar fora uma sociedade arcaica, mas que não alcançou ainda sua nova forma. Como sabemos, o modelo comunista implantado na União Soviética há mais de setenta anos tinha sua morte prevista quando, ao tentar se contrapor ao capitalismo, se utilizou do autoritarismo de Estado, o que acabou se tornando um fascismo vermelho. O capitalismo tornado hegemônico e adotando sua nova face neoliberal e globalizada, vem cinicamente constatando que a produção de miséria é absurdamente alta, o que torna a massa de excluídos inútil ao próprio capitalismo, pois não se tem dinheiro para consumir o que ele produz.
Estas mesmas transformações a que me referi, tem trazido alterações que oscilam no âmbito pessoal a até atingir toda a sociedade, inclusive modificando os espaços de militância e formas de comunicação. As relações entre homens e mulheres vem sofrendo diretamente estas influências, sendo o casamento tradicional e religioso, por exemplo, algo que sabemos já bastante enfraquecido. Os valores machistas, antes transmitidos como inquestionáveis, hoje e cada vez mais serão banidos. Os ambientes de trabalho já não são os mesmos do início do século, quando a revolução industrial explodia no Brasil e se tinha uma classe operária volumosa e muitas vezes presa ao tempo da produção. Hoje, através da internet, do fax, e do teletrabalho, cada vez mais e será assim progressivamente maior, teremos o trabalhador não mais se concentrando em ambientes pré-determinados. Enfim, todo um estilo de vida baseado na subordinação, passado de geração após geração, tenderá a ser revisto através das transformações em curso.
A questão preocupante e que nos faz pensar para onde e até quando vamos seguir nesse processo é conseguir lidar com os paradoxos da atualidade: condições excepcionais de vida através de tecnologia e os desastres ecológicos; maior número de profissões e o desemprego; ampliação dos direitos individuais e a força do mercado e do capital. Diante desse quadro, somos bombardeados de informações reacionárias através, especialmente da mídia eletrônica, que a juventude acomodada e sem esperança, já não luta por transformações sociais. Se vende a idéia que a eficiência do mercado vai responder a questões antes sem perspectivas. E que a globalização veio para ficar e é a grande maravilha do mundo atual, reduzindo distâncias, porém produzindo miséria em escala planetária.
Certamente não é nosso papel se contrapor à tecnologia, voltarmos ao primitivismo achando que chegaríamos ao purismo. Porém, como na velocidade das transmissões dos chips, temos pressa de encontrar alternativas viáveis para enfrentar toda mesmice da aldeia global. E uma das formas será justamente conseguir escapar do rolo compressor do tempo e de velocidade impostas pela sociedade atual. A velocidade, intimamente ligada à tecnologia, tornou-se um índice de progresso. Nos habituamos a fazer as coisas com pressa, e por pressão do tempo, já não conseguimos atender, mesmo nos tempos livres, às nossas reais necessidades. Esse retorno aparente à lentidão, na verdade é o resgate de valores fundamentais ao ser humano, perdidos ao longo do poderoso domínio da cultura racionalista e da era industrial, mecanizando o trabalho, a vida familiar, massacrando a criatividade e a subjetividade individual.
Quando o comunicólogo americano Gregory Batson defendeu a necessidade de uma ecologia subjetiva, pressuposto fundamental ao equilíbrio ecológico em níveis sociais e ambientais, ele se referia sobretudo ao resgate da individualidade. A descoberta da ética humana, o exercício da diferença e a limpeza do autoritarismo impregnado na formação da subjetividade das pessoas, são fatores que se ligam à idéia da ecologia defendida por Batson. A Soma, um processo pedagógico e terapêutico, corporal e em grupo, vem se utilizando em sua metodologia e base teórica dos princípios anarquistas como resgate da ecologia humana. Vem defendendo formas de intervenção social nesses últimos anos, baseadas na transformação individual como mecanismo de ação para transformação da sociedade. Uma dessas formas é o estímulo dos potencias criativos. A criatividade pode ser estimulada por um ambiente baseado na presença de lideranças carismáticas e rotativas, num clima de entusiasmo e solidariedade que fecunde idéias. Nas organizações baseadas no autoritarismo e na burocracia, as idéias são sufocadas e reprimidas. Portanto, valorizar a criatividade significa também reformular as relações de acasalamento, produção, e pedagogia. Outro estímulo fundamental defendido na Soma como veículo de transformação social é a defesa do prazer como ideologia de vida. Referencial indicativo da individualidade, o prazer foi muitas vezes combatido em detrimento do coletivo, inclusive dentro dos movimentos socialistas. O ser humano da nova sociedade vai exigir mais prazer, especialmente o prazer de ser criativo, amoroso, e autônomo. Ele servirá de seta orientadora das direções e caminhos à serem seguidos por cada um e a conseqüente relação com os demais membros da nova sociedade.
O movimento anarquista, atualizado para atender as transformações em curso, terá como desafio o exercício das suas características mais básica: a solidariedade, o individualismo e o combate sistemático ao poder centralizador. Tais condições são exatamente coincidentes com as novas necessidades que a humanidade apresenta. Dessa forma, não basta ao homem o desenvolvimento tecnológico se ele é incapaz de lidar com conflitos mais básicos sobre sua existência. De nada vale à humanidade reduzir distâncias se ao mesmo tempo são liquidadas culturas regionais e diferenças individuais. Como também é inútil valorizar a informação se ela é disponível para poucos.
As contribuições anarquistas que a Soma tem se preocupado em defender tem se tornado úteis especialmente na defesa e no exercício do valor humano que há em cada um. Pensar nas formas libertárias de intervenção para o próximo século, um tempo marcado por incertezas e medos pelo que nos espera, é sem dúvida pensar no indivíduo, suas aspirações, desejos e potenciais.
Mudar-se é um verbo reflexivo. Extremamente reflexivo. Assim como envolver-se, aprimorar-se, revolucionar-se, rebelar-se, questionar-se. Verbos que sempre marcaram a nossa existência.
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